Gazeta do Ateneu
22.4.06
Intrépidos cavaleiros - Osvaldo Pastorelli
Eram intrépidos cavaleiros. Guerreiros audazes que, com suas máquinas, enfrentavam terríveis perigos. Conduziam, em veículos de ultima geração, suas heroínas de um canto a outro do quintal.

Apesar da distância, tinham que enfrentar várias batalhas para transportarem as corajosas meninas que, como eles, não tinham medo de nada. O momento mais perigoso da jornada era no trecho onde seus velocípedes ficavam atolados na lama formada por eles mesmos. As três rodas do pequeno veículo chapinhavam no gosmento barro que, só com a vinda de outro, e unindo forças é que conseguiam sair do lodaçal.

As pernas franzinas e as calças curtas dos meninos, cujos suspensórios se cruzavam nas costas, estavam sujas de barro, e os vestidos das meninas, principalmente nas barras, apresentavam a mesma aparência.
- Não quero brincar mais, disse a pequena Luiza.
- Pronto, lá vem a chata estragar o brinquedo.
- Chata é a mãe, retrucou Luiza.
- Quem é chata? Repete se você é mulher, repete, menina boba, berrou o pequeno Rui.
- Isso mesmo que você ouviu, tonto. Chata é tua mãe.

E os dois se engalfinharam, rolando pelo chão. Pararam a brincadeira, formando torcida.
- Vamos Luiza, mostre que você é menina, gritavam as meninas.
- Isso mesmo Rui, mostre para essa lambisgóia quem somos nós.

Rui, por cima, aplicava tapas no rosto já vermelho da pobre Luiza. Luiza se esforçava para derrubar o primo de cima dela, mas não conseguia.
- Pede água, sua burra, vamos, pede.
- Não peço, respondeu com os olhos marejados de lágrimas.
- Ei, que isso meninos, se comportem, disse Mada, saindo da casa.

E correu para apartar os briguentos.
- Vamos, parem, nem parecem primos. Que coisa feia brigarem.
- O que foi, Mada?
- Os dois aqui, brigando. E vocês, em vez de separar, ficam atiçando.
- Luiza, já pra dentro, disse Gusta, ralhando com a filha.

Luiza, chorando, entrou na casa aos resmungos.
- Foi ele que começou, não fui eu.
- Mentira dela. Ela que começou me xingando.
- Não me interessa quem começou, já de castigo, vá para dentro.

Quando ficaram sós as cinco crianças, Cau disse:
- Dedo-duro.
- Não sou dedo-duro não, berrou Irani.
- É sim, retrucou o Vardinho. É e correu chamar as tias.
- Não sou não, vocês iam deixar eles brigando.
- Dedo-duro, dedo-duro, berraram em coro.

Irani, chorando, correu pra dentro gritando:
- Mãe, eles estão me chamando de dedo-duro.
- Que coisa feia, crianças.
- Vamos, agora vão se lavar para o almoço.
- Rápido! Sem gritaria e sem bagunça.

E lá foram eles, na maior gritaria, se lavar, esquecendo as brigas. Passaram correndo pela tia que lavava a louça.
- Cuidado para não caírem, aconselhou Vitória.
- Vitória, você não viu o Vardinho?
- Olha lá, e apontou para o quintal.
- De novo!
- Ruli, não vá brigar com ele, converse.
- Pode deixar, Vitória.

Enquanto lavava os pratos ficou observando a cunhada falar com o filho. Não conseguia ouvir o que diziam, mas pela expressão da cunhada, sabia o que se passava com o sobrinho. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. A cunhada não entendia que eles passavam pela época da inocência.
Dali a pouco, mãe e filho entraram.
- Quer ser escritor? Perguntou Vitória.
- É. Sabe o que ele me disse?
- O quê?
- Que estava guardando aquele momento na memória para quando for grande poder escrever.
- Isso é coisa de criança, passa, sossega.
Pastorelli
29.04.03

Tela original de Pedro Neves "Frutos da terra" www.carlosmagno.fot.br
Montagem digital: Cristina Pires
posted by Ateneu @ 7:44 a.m.   0 comments
19.4.06
Nem só de abobrinhas...
Nem só de teoria literária, exercícios poéticos, troca de impressões sobre assuntos sérios, vive o grupo Ateneu.
Temos também os nossos momentos de alegria, de piadas, de riso escancarado, e de "abobrinhas". Sim, abobrinhas. E porque não? Abaixo, vai um bom exemplo disso: abobrinhas e boas letras. Este data de 2003 e foi publicado pelo nosso Xerozo (Zéferro) no site Usina de Letras (www.usinadeletras.com.br), mas tantos outros momentos iguais se seguiram.
Uma boa leitura.


Aos amigos e amigas, eis aí um exemplo dos nossos exercícios de poetar no Ateneu, ateneu@yahoogrupos.com.br

Marques (Zéferro)

----- Original Message -----
From: Lucelena
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Saturday, February 22, 2003 8:10 AM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Taí ZéFerro, Missão cumprida...... Você é abençoado!!!! (rsss)

abrçs
lucelena
----- Original Message -----
From: Fátima Marques da Cunha
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 10:20 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Zezin, keridin, tu é bom D+!!! A galera feminina te ama de montão!!!


----- Original Message -----
From: JF Marques de Souza
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 10:11 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Missão do homem
Zéferro

Santa não é a mulher
Que se ama com ardor
Mas a ela sempre quer
Adorar o nosso amor

Dedicar-lhe a paixão
Que nos torna seu escravo
E com toda emoção
Defendê-la como um bravo

Fazer dela o farol
Que ilumina nossa vida
E aquece como um sol
Dá sentido à nossa vida

Suaviza o tropeço
Incentiva o retomar
Ela é o fim e o começo
O porto pra onde voltar

Deus nos fez com intenção
Carente e incompleto
E nos deu um coração
De amor todo repleto

Eis do homem a missão
Ser sempre um doador
Encontrar o coração
Para aceitar seu amor!

----- Original Message -----
From: Fátima Marques da Cunha
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 9:47 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Punicácia!!! Estou entendendo os dois... querem dizer a mesma coisa, praticamente... uffffaaaa, mas enquanto isso: clap, clap, clap!!! Só não entro nessa pq estarei ocupada falando de coisa melhor.... beleza masculina!!!

----- Original Message -----
From: Lucelena
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 9:06 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Verdade

A mulher não é santa
pra ser colocada em altar
veja como ela se apresenta,
e não há de decepcionar

Como tudo é verdadeiro
até que se prove o contrário
decepção pro companheiro
é deusa que fuja ao imaginário.

Raça, peso, beleza, religião
de fato são detalhes, não deve contar
fidelidade sim, tem estadia no coração
de quem sabe o amor conquistar

Na verdade as qualificações
são tipos agregados, confundem
mas há homens cheios de paixões
querendo entrar de cabeça, ir fundo...

----- Original Message -----
From: JF Marques de Souza
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 7:37 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Tréplica
Zéferro

Quando se põe a mulher
No altar da adoração
Uma nuance qualquer
Não mexe com o coração

Ou nossa deusa ela é
E mostra que é verdadeira
Merecendo nossa fé
Nossa vera companheira

Ou falsa se apresenta
Por não ser quem se deseja
E o coração lamenta
Que o nosso amor não seja

Mas se desperta o amor
Nada mais vai importar
Raça, feição, peso, cor
Terminou o procurar

Somente a ela compete
Merecer a adoração
Pois o amante repete
Aceita meu coração!

----- Original Message -----
From: Lucelena
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 5:08 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Réplica

Zéferro então vou dizer
ocê deve tá enganado
existem tantas a conhecer
que te deixariam embriagado

Como mulher eu te falo
cuidado ao usar a expressão
falsa e verdadeira, num estalo
mulheres são cabeça e coração

Ninguém é inteiramente "verdade"
falando do animal, homem e mulher
e nem tão pouco falsidade
se a paixão a ambos convier


Você mesmo pode observar e dizer
a verdadeira de outro
pode ser falsa pra você...

Então volto a afirmar
há muitos tipos de mulheres
e de homens também
mas num arriscaria frisar
se são do mal
ou do bem.

----- Original Message -----
From: JF Marques de Souza
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 3:29 PM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Discordo
Zéferro

Minha cara Lucelena
Eu vou discordar de ti
Só dois tipos de mulher
Neste mundo eu já vi

E aqui eu te confesso
Sem um sinal de maldade
Ou existe a mulher falsa
Ou a mulher de verdade

Quando se encontra a mulher
Inteira, mulher de raça
Nada mais se admira
Que não seja a sua graça

Não importa sua cor
A beleza está lá dentro
E se morre de amor
Da vida se torna o centro!

----- Original Message -----
From: Lucelena
To: Ateneu@yahoogrupos.com.br
Sent: Friday, February 21, 2003 7:53 AM
Subject: Re: [Ateneu] Simplesmente Mulher - Conceitos de Beleza - Mulher feia -


Simplesmente Mulher
lucelena maia

Há mulheres de todos os tipos
da pele branca a negra
da sonhadora cética
à simples, sincera, donzela.
Da frágil à cheia de razão.
Há também a intempestiva,
impetuosa, brincalhona,
e a que parece um avião...
Há a feia e a baixinha,
a magra serena
a boa mãe, boa filha
a de todos os credos,
as comedidas e as espinhadas,
as sofridas e as desligadas,
as estudiosas e inteligentes,
e as que se escondem para
não olhar de frente.
Há a vaidosa e bonita,
a cheia de silicone,
a que fala demais,
a humilde chorona.
Há aquela que não concebe
e a que maltrata o filho,
a de corpo malhado, sedutora,
a solteira que só fica.
Há a separada, a viúva,
as que gostam de homens
e as que não simpatizam
com quem usa barba e bigode.
Há a mulher submissa,
a revoltada, a gorda,
a resolvida e feliz,
e a que em tudo mete o nariz.
Há a que se ache inteligente,
a que o é sem parecer,
a que vive como indigente
e a que luta para viver.
Há a sorridente,
mas há também a infeliz,
a que soluciona problemas,
e a que os atrai para si.
Há enfim, todos os tipos de mulheres,
de todas as raças, todas as culturas,
classes sociais,
postura política,
as geniosas ativistas,
as que lutam por justiça,
e as que gostam de ser
apenas mulher...
21/02/2003


........................................................................................................
Conceitos de Beleza...
(( Angela Bretas ))


Que beleza plástica é esta,
que vende milhões,
desperta inveja,
atiça o desejo
e apodrece
debaixo de sete palmos,
como todos os mortais?

Que beleza triste é esta,
que refletem olhos mareados
carentes de elogios sinceros,
que sentem a falta de alguém
que consiga enxergar muito
mais além...?

Que beleza solitária é esta
da modelo com pose de boneca de cera,
que não pode verter lágrimas
para não estragar a maquiagem,
que é tida como um estereótipo
de mulher perfeita,
mas que sofre, sente, chora
como qualquer ser humano...?

Que beleza doentia é esta,
que trava batalhas com balanças,
em dietas para ganhar
e perder peso,
rotulando o segredo da felicidade da vida
em quilos a mais
e quilos a menos... ?

Que beleza magnífica é esta
refletida nos sorrisos
que nascem espontâneos
em bocas
desprovidas de conceitos futis,
em faces enrugadas,
em corpos satisfeitos ,
que transmitem
alegria serena
de quem é feliz...?



@copyright by Angela Bretas - direitos reservados

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Mulher feia
((Zéferro, 19/01/2003))


Sobre a Terra não existe mulher feia
Sempre haverá um olhar apaixonado
Que se entregue submisso à cadeia
Do encanto que lhe foi designado

É verdade que a beleza está no olhar
De quem fita pra saber se admira
E enxerga de repente o seu par
Num instante se entrega e suspira

A partir deste momento nada vê
Eis a feia para os outros feita bela
E nem ela na verdade pode crer
Que merece a seresta na janela

É bem certo o dizer que o coração
Sobrepõe-se muito fácil à razão!
posted by Ateneu @ 9:35 a.m.   0 comments
Cordel - O turkin reinventado, de Herculano Alencar

O turkin reinventado

Herculano Alencar



Antes do Cristo nascer,
pouco mais de três milanos,
nem tinha paraibano
pra cearence “morder”...
Começou a florecer
um povo, dito, sem vícios,
que veio a ser os Fenícios
nascidos dos Cananeus:
Magote filho de Deus,
tiveram vida difícil!

Este povo deu início,
como reza na história,
uma luta meritória
e de muito sacrifício,
pra dá conta do ofício
de construir sua nação:
Sofreram a escravidão,
domínio grego e romano,
de francês e otomano
de César a Napoleão.

Apesar da humilhação
de um povo dominado,
seu douto professorado,
homens de grande instrução,
criaram a concepção
do código justiniano,
que depois de muitos anos
de aperfeiçoamento,
assentou os fudamentos
das leis do povo romano.

Deste céu mediterrâneo,
fronteiriço de Israel,
um famoso menestrel,
sujeito de muito crânio;
Um feliz contemporâneo
de Nabucodonosor,
para o Brasil imigrou,
se assentou em Araxá,
vivendo feito um paxá
que dona Beija, beijou.

Dizem que foi ouvidor
do rei, em todo o reinado,
que caiu, enamorado,
por Beija se apaixonou.
Com ela não se casou,
pois tinha a sua princesa.
Com a bela libanesa,
a primeira namorada,
viveu um conto de fada
de muito amor e riqueza.

De tamanha boniteza,
foram nascendo os rebentos,
que herdaram os talentos,
honestidade e nobreza,
inda de sobra, a destreza,
e um tino infernal;
Um pouco de capital
para montar o negócio.
Pai e filho foram sócios
na área comercial.

O filho: Tannús, Faiçal,
era o contabilista,
professor, malabarista,
etcetera e coisa e tal.
Cozinheiro, sem igual!
De vatapá a chucrute,
pra num falar do Beirute,
sua especialidade,
faz, com muita qualidade,
queijo mineiro e quitute.

Seu moço, ocê me escute!
Como diz o bom mineiro.
O cabra ganha dinheiro
até fazendo vermute.
Calculado, assim, no chute,
que só em ouro maciço
deixou num banco Suíço
quase uma tonelada.
Tudo em barra marcada,
que pra ninguém dá sumiço.

‘Cê pensa que é só isso?
Inda por cima é artista...
É um grande cordelista,
desses de veio castiço,
de dá conta do serviço
do começo até o fim.
Até mesmo Seu Ferrin,
o maior adversário,
cordelista sanguinário,
com ele, come capim,

É mesmo um espadachim
o nosso grande Faiçal,
curtido na água e sal,
pras musas é um jasmim.
Poeta tupiniquim,
vive, na sua redoma,
com tudo aquilo que ama,
inclusive o vil metal.
Mas seu maior capital
tá no coração de Roma.

posted by Ateneu @ 8:54 a.m.   0 comments
18.4.06
Ciranda "Conclamação" - Grupo Ateneu

Ciranda - Xilogravura de

Yole Travassos (www.yoletravassos.com.br)


1. Conclamação
Zéferro, 120405 10:35

Eis os bardos e as musas tão silentes
Não se ouvem mais cantos pelo ar
'Stamos todos tão tristes e carentes
Que saudades dos tempos de cantar!
Venham todos com seus versos mais quentes
Vamos todos a liça alegrar!
Esta vida é curta e passageira
E a ventura se vai! Breve e ligeira!

2. Conclamada
Elane Tomich, 120405 13:35

... o sorriso que se foi à casa volta
em corcel de versos breves, venturosos!
Conclamado a novos ares corre à solta
um perfume virtual de amor doloso
Esta gente que é fieira preciosa
nos aquece de afeto, teia envolta
pois que o afago dedicado aos amigos
é a prece que me guarda do perigo.

3. Conclamação
Faiçal- 12/04/05
Eis que se agiganta na hora certa
E retorna com seu cadente rufar
Marchemos todos c’ o poeta
Na alegria do seu poetar!
Venham sim, no ritmo quente
Vamos que vamos alavancar
Nossa vida é curta e passageira
E a ventura se vai! Breve e ligeira!

4. Conclamação
Cleide Canton 120405 16:55

Não fique só na brancura
dos seus versos cristalinos
Tente além, veja a doçura
das rimas dos nossos hinos.
Na idéia não há censura
nem moldes em figurinos.
Solte o verbo, grite forte
e dome o seu vento norte.

5- Conclamação
Cristina 12/04/05 19:10

Se me calo durante longos dias,
- A voz se me enregela c'a geada... -
E de mim já não ouves melodias,
É porque a Primavera foi trancada
Às portas d'um Inverno que me urdias...
Ainda assim, nas montanhas condenada
Vou semeando nas suas vertentes
Clamores escarpados e pungentes!...

6- CONCLAMAÇÃO
Olga 12/04/2005
( aqui ainda é 12, Portuguinha!)

Meu canto não calou, inda porfia!
Na poesia que a mente fia,
envia ao infinito silencioso,
suspiros gemidos de meu choro!
Saudosas emoções, motrizes ,
felizes e tristes, tramando fios,
filigranas auríferos
nas letras, rainhas e reis
trançando poemas!
Ah, que saudades tenho!

7- CONCLAMAÇÃO
Célia Lamounier - agora já é 13.04

Se a ventura se vai, breve e ligeira,
Certamente o poeta vai chorar
Esquecendo que a vida passageira
Tem o momento certo de cantar.
Que venha a inspiração mais verdadeira
Devaneios em noite de luar.
E o poeta de amor vai colorir
Nosso Ateneu com versos, a sorrir.
.........
posted by Ateneu @ 8:55 a.m.   0 comments
16.4.06
Uni-Versos

Francisco Gómez de Quevedo y Villegas, filho de Pedro Gómez de Quevedo y Villegas e de María Santibáñez, nasceu em Madrid no dia 17 de Setembro de 1580 no seio de uma familia da aristocracia cortesã. Escritor espanhol, que cultivou com abundância tanto a prosa como a poesia e que foi uma das figuras mais complexas e importantes do Siglo de Oro espanhol.
Homem de acção envolvido nas intrigas mais importantes do seu tempo, era douto em teologia e conhecedor das línguas hebraica, grega, latina e moderna. Destacava-se pela sua grande cultura e pela acidez das suas críticas; acérrimo inimigo pessoal e literário do culteranista Luis de Góngora, outro grande poeta barroco espanhol.
De vasta e contraditória obra literária, homem culto, desgostoso, perspicaz, cortesão, escreveu as páginas burlescas e satíricas mais brilhantes e populares da literatura espanhola, mas também uma obra lírica de grande valor e uns textos morais e políticos de grande profundidade intelectual, que o faz ser o principal representante do barroco espanhol. A sua obra converge com a sua forma de vida: desenvolta e alegre nas sátiras da sua juventude - letrillas (composições poéticas em versos pequenos ou em estrofes de igual estribilho) burlescas e satíricas como "Poderoso caballero es don Dinero" - é o Quevedo mais conhecido e popular. Criticou com mordacidade atroz os vícios e debilidades da humanidade, e censurou de maneira cruel os seus inimigos, como no conhecido soneto, paradigma conceptista: "Érase un hombre a una nariz pegado...".
Na sua poesia amorosa, de corte petrarquista em que o que conta é a profundidade do sentimento, Quevedo viu uma possibilidade de explorar o amor como sendo o que dá sentido à vida e ao mundo, exemplo disso é o soneto "Cerrar podrá mis ojos la postrera..." que é um dos sonetos mais belos das letras espanholas, no qual a morte não vence o amor que permanecerá no amante como é evidente no último terceti. É um poeta genial, cuja permanente actualidade, maravilhosa capacidade criadora do idioma castelhano, honradez moral e elevada lírica, dão-lhe um lugar proeminente na poesia espanhola.
Da sua prolífica obra em verso, conservam-se quase 900 poemas. Da sua prosa cabe distinguir: "La vida del Buscón llamado don Pablos"; "Política de Dios y gobierno de Cristo"; "Vida de Marco Bruto"; "Los sueños" e "Los nombres de Cristo".
Entre as suas poesias há um sem número de sonetos hendecassílabos, mas também abunda o romance octossilábico e a redondilha. A poesia intitulada "Epístola satírica y censoria..." é um alarde magistral de tercetos hendecassílabos encadeados.
Faleceu em Villanueva de los Infantes em 8 de Setembro de 1645.




Definiendo el amor
Francisco de Quevedo (1580-1645)

Es hielo abrasador, es fuego helado,
es herida, que duele y no se siente,
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.

Es un descuido, que nos da cuidado,
un cobarde, con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.

Es una liberdad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo,
enfermedad que crece si es curada.

Éste es el niño Amor, éste es tu abismo:
mirad cuál amistad tendrá con nada,
el que en todo es contrario de si mismo.


Definindo o amor
Francisco de Quevedo (1580-1645)

É gelo abrasador, fogo gelado,
é ferida, que doi e não se sente,
é um sonhado bem, um mal presente,
é um breve descanso mui cansado.

É um descuido, que nos dá cuidado,
um covarde, com nome de valente,
um andar solitário entre a gente,
um amar simplesmente ser amado.

É uma liberdade encarcerada,
que dura até ao último paroxismo,
inquietação que cresce se é curada.

Eis o jovem Amor, eis o seu abismo:
mirai qual afeição terá com nada,
o que em todo é contrário a si mismo.


Amor é fogo que arde sem se ver
Luis Vaz de Camões (Lisboa ou Coimbra, c. 1524 - Lisboa, 1580)


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Fonte: http://www.los-poetas.com/
Editado por: Cristina Pires
Tradução biografia e poema: Cristina Pires

Fotos: www.bibliele.com e www.usc.es

Montagem: Cristina Pires

posted by Ateneu @ 8:34 p.m.   0 comments
7.4.06
Oitavas camonianas - Valdez X Zéferro



Valdez x ZéFerro
23/11/2004

Zéferro

oh poetas tangei as vossas liras,
pra cantar os sentires que guardais,
não deixai que somente a dor vos fira,
emiti vossos cantos e os ais!
pois poeta é aquele que retira
luz do verbo, sentir chulo, jamais!
vamos todos erguer a nossa voz,
vamos todos da deusa Erato em pós!

valdez

Meu querido Ferrim, homem sem peta,
Se abraçais, com fervor, tal incumbência,
É mister que esqueçais dessa marreta,
Ponteando na lira com decência...
Versejando, capricheis na etiqueta,
Fazei versos viris, com competência.
Nossas musas, vereis, aplaudirão,
Se tocais nessa lira com paixão!

zéferro

eia! grande momento de alegria!
nosso mestre adentra esta liça
ponteando saber e poesia
com a sua linguagem mais castiça,
e jamais usarei algaravia
pra terçar com tão sobre senhoria!
vejam todos, poetas do Ateneu,
eis que troa a voz de Prometeu!

valdez

Prometeu, criador de nós, humanos,
Foi por Zeus firmemente acorrentado.
Num rochedo ficou trinta mil anos,
O seu fígado às águias ofertado.
Se não queres prover tais desenganos,
Bem melhor me farias se, calado,
Contivesses, ao largo, o pensamento,
Me poupando, de pronto, o sofrimento.

zéferro

eu não quis referir ao seu castigo,
mas ao bravo que ousou roubar o fogo,
arrostando a ira e o perigo
sem cuidar que sua vida estava em jogo!
é assim o poeta, inimigo
dos que tudo açambarcam com malogro;
se a voz do poeta troa alto,
a bravura que mostra eu exalto!

valdez

Prometeu já de Hefesto há furtado
Muito fogo pra dar aos vis mortais.
Das sequelas não viu, mal informado;
Fez do mundo um curral para animais:
Deu-lhes fogo de amor, incontrolado;
Deu-lhes fogo pras guerras mais brutais.
No meu peito convivem dois teimosos:
O guerreiro e o poeta valorosos.

zéferro

mas em tudo fez Deus com perfeição:
se no Homem deixou criar-se a fera,
também deu-lhe um doce coração,
que mil versos de amor à musa gera
e o redimem dos crimes co'a paixão,
viva ele em palácio ou tapera!
no poeta Deus fez o equilíbrio,
e a Fera rendeu-se ao Seu Princípio

valdez

No princípio Jeová fez a bebida,
Fez o vinho vertendo dos vinhedos;
E num porre feliz compôs a vida:
Um macaco boçal fez de levedos.
Mas, sentindo sua obra indefinida,
Fez Pandora, senhora dos segredos.
E, cansado, esquivou-se da empreitada...
Desde então, que saiba, fez mais nada!

zéferro

e não era preciso mais fazer,
pois a musa já dera ao poeta;
o que mais ias tu inda querer
se a terra do belo era completa,
da mulher, para nos enlouquecer?
Erato de poesia a fez repleta!
hoje o canto podemos entoar,
pois a deusa nós temos pr'adorar!

valdez

Um facheiro de luz rompendo os ares
Resplandece nas vestes celestinas:
São meus versos brilhando quais quasares,
Minhas rimas estrelas vespertinas;
Os meus cantos, em tudo, singulares
Sobrelevam potências masculinas.
Tudo em mim se queimando em fogo imenso,
Tudo em mim desejando ser intenso.

zéferro

meteoro rasgando com sua luz,
pelos céus estrelados da poesia,
quero ser só o bardo que traduz
o amor com a minha melodia,
e em braços macíos, minha cruz,
quero ter meu castigo noite e dia,
pois eu sou o poeta que bem quer
minha vida doar pr'uma mulher!

valdez

À mulher concedemos nossas vidas,
Desde tempos perdidos no passado;
Todas elas são minhas preferidas,
Sem nenhum pontifício recusado.
Mas, se queres privar das pretendidas,
Que os pudores se tenham conservado.
Os pudores no amor são prazenteiros,
Se cuidares gozá-los verdadeiros!

zéferro

eu as amo assim, na plenitude,
e as quero sem ver raça nem cor,
os pudores a que o mestre alude
pra gozá-los enfrento qualquer dor,
entoando mil loas co'alaúde,
sem ser rude tal qual Admastor!
pra mulher eu empunho minha tocha
mas não quero findar feito uma rocha!
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3.4.06
Voc Papeando sobre Guimarães Rosa

Este ano comemoramos os 50 anos das publicações de Corpo de baile e de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa ((l908-1967).
Em 1925 Rosa entra na Faculdade de Medicina e tem contos premiados; participou, como soldado, da Revolução Constitucionalista de 1932; em 1934 ingressa no Itamaraty, trocando a carreira de medicina pela de diplomata. Rosa tinha uma propensão e facilidade extraordinárias para o aprendizado de línguas. Falava, fluentemente, inglês, francês, espanhol, italiano e alemão; lia latim, grego, russo, chinês, árabe e dinamarquês. Mas... do que mais gostava, dizia, era de gado e cavalos. Viajou pelo pantanal e, em 1951, percorreu 240 km do sertão mineiro, conduzindo uma boiada.
A obra mais badalada de Rosa é Grande sertão: veredas. Tenho preferências por Sagarana e por Corpo de baile. Grande sertão: veredas, registra as narativas de Riobaldo, um chefe de jagunços, e a grande solidão interior do sertanejo. Diz-se que Grande sertão: veredas criou um dialeto. A pesquisadora Nilce SantAnna Martins afirma que analisou cerca de oito mil vocábulos empregados por Rosa na sua obra-prima, dos quais 30% não são dicionarizados. Alguns dos que estariam nessa condição: carregume, desolhadamente, embiocado, indarguir, mansejar, perequitar, tisnado, ventainhar... Quem é nordestino e conviveu com o homem do campo não estranhará estas expressões, por serem íntimas, de sala e cozinha. Atribui-se igualmente a Rosa a criação do vocábulo "nonada". "Nonada" já havia frequentado Os Sertões, de Euclides. É de uso anterior a Rosa.

Rosa foi um amante do Sertão. O Norte de Minas, onde se desenvolve o romance, está inserido no Polígono das Secas e tem características geológicas semelhantes às do Nordeste. De lembrar que foi pelo rio São Francisco que os nordestinos se interiorizaram, desde épocas remotas, nas pegadas do boi, por esses sertões-de-Deus-amém, indo até às suas nascentes, em Minas. Convém lembrar que uma multidão de nordestinos se deslocou para as Gerais quando da corrida do ouro no início do século XVIII. Que lá venceram os paulistas, no confronto que ficou registrado na história como Guerra dos Emboabas; que a maioria dos nordestinos não retornou para as suas casas quando o ciclo do ouro acabou. Rosa teve, evidente, contato com essa gente. Anotou as suas tradições orais, tal e qual Goethe havia feito em relação às tradições orais do seu povo.
Grande sertão: veredas é uma obra que merece ser estudada. É fruto de mais de dez anos de trabalho consistente, e Rosa não é nenhum Paulo Coelho.

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Harold Bloom disse que todos os autores sofrem de angústia de influência. Realmente, não é fácil ser original, principalmente nos tempos de hoje. É uma angústia que vem de longe, de depois de Homero. Nosso primeiro épico, Bento Teixeira, sofria de febre de influência.

Assim sendo, é inegável a influência de Os Sertôes (1902) sobre Grande Sertão: Veredas. A propósito, andei esquadrinhando o Ulisses, de Joyce, na tradução mais recente, de Bernardina Silveira Pinheiro. Bernardina deu um tom mais coloquial a Ulisses. Pra ser sincero, prefiro a tradução de antonio Houaiss, filólogo que nos deixou um excelente dicionário. Lembro de uma entrevista que Houaiss deu a O Cruzeiro. Contava, nessa entrevista, do seu trabalho rigoroso com o objetivo de ser o mais fiel possível a Joyce. Compreendo que não foi moleza traduzir Joyce, principalmente porque o tradutor deveria relevar o coloquial dublinense do início do século XX sem falsear a linguagem inovadora de Joyce, de estilos literários de várias épocas, e laborada sobre a estrutura de um épico da antiguidade visto por um olhar moderno.

Rosa não nega a influência de Os Sertões na sua obra, bem como a de outros ensaios de formação, de autoria de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Raymundo Faoro, Antonio Candido, Darcy Ribeiro... Contudo, entre outros propósitos, teve Rosa a pretensão de fazer uma reescrita crítica do livro precussor.

Já que falei de Joyce e Guimarães Rosa, lembrei do irmão Hermam. O irmão, marista, foi meu professor de francês no velho colégio Pio X. Gabava-se de falar o latim e todas as línguas nascidas do latim, e de gaguejar em mais dez idiomas. O irmão Hermam carregava um olhar incompreendido de figura marciana. Joyce e Rosa tinham em comum com o irmão Hermam a característica de manipularem vários idiomas (coincidências?). Rosa, positivamente, esgrimava com uns 17. Pois bem, ambos concluíram obras-primas que se comunicam pela complexidade. Não são obras fáceis de ler.

Grande Sertão: Veredas se funda nas narrativas de Riobaldo, um chefe de cangaceiros; na sua paixão não manifesta por Diadorim, companheiro de cangaço, que ele somente iria descobrir que era mulher após a morte dela. E por falar em Diadorim, quem teriam servido de modelo para este personagem? Anita Garibaldi? Jovita Alves Feitosa?

Anita a maioria de vocês conhece. Deixo-vos o desafio de descobrirem quem foi Jovita Alves Feitosa.
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Três pessoas do nosso grupo (Ferroso, Nelim e Sandrinha) responderam com presteza ao desafio que lhes fiz. Deixaram na poeira a outrora imbatível Pestinha. Fiquei surpreso com o número de respostas, não com a ligeireza demonstrada.

Recentemente, numa enquete feita pela RAI, canal de TV italiano, sobre a autoria de O nome da rosa, 12% acertaram na mosca. Afirmaram que o seu autor era Umberto Eco. Eco ficou radiante, embora nada menos de 47% dos que responderam a enquete tenham afirmado que o autor de O nome da rosa era Sean Connery. Segue-se daí o debate sobre memorização x compreensão. O escritor George Steiner, na contramão da moderna pedagogia, defende a memorização. Afirma que: O que sabemos de cor (no coração) amadurecerá e se desdobrará dentro de nós. Em Mnemão, ou a Sabedoria Humana, Voltaire conta a história de um homem que perdeu a memória. Todos os dias esse homem tinha que reaprender os passos dos meios de sobrevivência.

Eis aí a nossa Jovita, uma piauiense de coragem indômita.

O Paraguai invadiu o Mato Grosso em 1864, e foi até Goiás. Fazia muito que manifestava pretensões sobre a parte oeste do Mato Grosso. Depois invadiu o Rio Grande Sul, confiante em acirrar os sonhos separatistas daquele pedaço do país. O Brasil passou quase um ano para responder a Solano Lopez. Nosso exército possuia rídiculos 17 mil homens, contra os 100 mil de Solano. O serviço militar não era obrigatório entre nós. Assim, nasceu a campanha dos Voluntários da Pátria. O trabalho de Jovita foi fundamental para a arregimentação e agregação das nossas forças. Formaram-se batalhões de negros, de nordestinos e até de contigentes paraibanos. Ao término da guerra os negros teriam a alforria, conforme prometido. Os paraibanos infligiram pânico à gente paraguaia. Tinhamos o costume de comemorar as vitórias bebendo cachaça e comendo pedaços assados dos adversários, misto de ritual de antropofagia, crença na assimilação da coragem dos inimigos e puro deboche. Aprendemos com os potiguares. De esclarecer que ainda contamos, na Paraiba, com 30 mil potiguares puros, estacionados numa grande reserva que abrange os municípios de Marcação, Mamanguape, Rio Tinto e Baia da Traição. Estão abrigados em 28 povoações. Piscatunga ararubê, piscatunga tinga... aauê seruberubá...

Infelizmente nossa heroína sucumbiu aos transes da paixão por um cara-pálida.

Imagino o samba-de-criôlo-doido que os portugueses promoveram quando descobriram o Brasil. Era perereca pra nunca acabar. Martin Afonso, em 1530, encontrou João Ramalho bem acomodado no planalto de Piratininga com mais de 40 molequinhos, todos da sua lavra. Pereira Coutinho, em 1548, encontrou Caramuru com a sua Paraguaçu, na Bahia, e descencência não menos impressionante. A propósito, o projeto Genoma, do qual o Brasil participou com brilho, mostrou o que eu desconfiava faz muito. A contribuição indígena, na composição do sangue brasileiro, é muito superior à contribuição africana. Baseava-me num censo feito em João Pessoa no ano de 1595, dez anos depois da criação desta formosa cidade. Nossa população, naqueles idos, era de 200 brancos, 800 negros e 25 mil índios.

Nossa Jovita foi vítima do amor por um branquelo alemão. Outro branquelo nos abocanhou a formosa Julia da Silva Bruhns (1851-1923), uma índia nascida em Parati-RJ. Esta é mãe do escritor alemão Thomas Mann, autor da obra-prima A montanha mágica. De dizer que Mann sempre manteve com o Brasil uma relação muito afetiva. Pena que os seus prognósticos, inseridos em Brasil, país do futuro, não se tenham concretizado ainda.

O suicídio de Jovita foi lamentável. Tivesse me conhecido e eu a teria demovido de cometer semelhante besteira por amor.


Valdez de Oliveira Cavalcanti (voc)
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Centenário Agostinho da Silva


As comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva, pensador que continua controverso e enigmático, arrancam hoje, no Centro Cultural de Belém (CCB), com o patrocínio da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima.

As celebrações incluem colóquios, exposições, publicação de livros, edição de um selo comemorativo, abertura da cátedra Agostinho da Silva na Universidade de Brasília e o baptismo de um avião da TAP com o seu nome.

As iniciativas resultam de uma parceria dos governos de Portugal e do Brasil (onde o escritor esteve exilado) e a Associação Agostinho da Silva e incluem a projecção do documentário "Agostinho da Silva: um Pensamento Vivo" e a inauguração da mostra "Agostinho da Silva: Pensamento e Acção" em cidades portuguesas e estrangeiras.

A efeméride revela um pensador e pedagogo que continua a ser uma figura controversa e enigmática, mesmo para os que com ele privaram.

Reconhecendo que a sua personalidade sempre o intrigou, o ensaísta Eduardo Lourenço afirmou que "não era parecido com ninguém, excepto com ele próprio" e lamentou que a sua obra ainda esteja "pouco estudada".

Por seu lado, o escritor Fernando Dacosta afirmou à Lusa que se vive "um tempo anti-Agostinho da Silva", pois "a sua filosofia e utopia" não têm eco junto dos governantes, apesar de ter sido uma figura de "grande lucidez".

Nuno Nabais, professor de Filosofia em Lisboa, assegurou que "não existe um pensamento Agostinho da Silva" e disse acreditar que o pensador "estaria a rir-se, ao ver-se objecto de comemorações oficiais".

O escritor Baptista-Bastos, por seu lado, declarou que Agostinho da Silva - "um grande museu clássico com um perfume de modernidade" - representa "uma grande dose de utopia de quimera e de esperança nas infinitas possibilidades do Homem".

O filófoso e pedagogo Agostinho da Silva nasceu no Porto, a 13 de Fevereiro de 1906, esteve preso no Aljube devido a polémicas com o Estado Novo e com a Igreja Católica e optou por se exilar no Brasil, onde co-fundou as universidades federais da Paraíba e Santa Catarina e a Universidade de Brasília.

Quando morreu, em Lisboa, a 3 de Abril de 1994, Agostinho da Silva deixou uma obra vasta que inclui textos pedagógicos, ensaios filosóficos, novelas, artigos, poemas, estudos sobre História e Cultura e as suas reflexões sobre a religião.

Fonte: www.publico.clix.pt

AGOSTINHO DA SILVA por si próprio - Uns poemas de Agostinho

Sou Marujo, Mestre e Monge

Sou marujo, mestre e monge
marujo de águas paradas
mas que levam os navios
às terras por mim sonhadas

Também sou mestre de escola
em que toda a gente cabe
se depois de estudar tudo
sentir bem que nada sabe

Mas nem terra ou mar me prendem
e para voar mais longe
do mosteiro que não houve
e não haja, me fiz monge

___________________________________

Acho graça às homenagens
Que me prestam,
Excelente sinal de ilusões
Que a eles restam ;

Sou tão humano quanto os outros,
Com qualidades e defeitos
E mais as manhas que se escondem
Em seus peitos; [...]

De nós nada mais deixamos
Que vãs memórias,
Só Deus é grande, só Deus é santo
E o demais histórias


"[...] não me importa nada que me critiquem. Exactamente como não me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me elogie como me censure - eu considero aquilo como uma opinião pessoal e não comparo com coisa nenhuma porque eu próprio não tenho opinião pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem crimonoso, sinto que vivo, sinto que sou" - Vida Conversável [1985].

"Acompanhando Gide, faço votos por que a loucura me inspire e a razão me exprima" - Pensamento à Solta.

O BIÓGRAFO

Não deixando de recordar Vidas de Plutarco, as biografias de Agostinho são modelos éticos que, mostrando o esforço de auto-superação dos indivíduos em luta por realizarem ideais elevados, visam contribuir para a educação dos leitores mediante recurso aos exemplos concretos de que é possível, pelo combate espiritual, intelectual, moral e social, triunfar sobre as limitações da ordem estabelecida no mundo, nas consciências e em si mesmo. O santo, o religioso e o sacerdote, o poeta, o escritor e o artista, o cientista, o educador e o político, em sua humanidade pulsante de força e fraqueza, igual à de todos nós, desafiam-nos, por diferentes veredas, à mesma tarefa de realização do melhor de si. E podemos decerto contemplar, neles e nas considerações que a seu respeito o autor desenvolve, os diferentes aspectos do seu próprio pensamento e ideal de vida.

"O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo aquele século um mundo novo, se a sua construção estivesse dentro das possibilidades humanas; os grandes edifícios sociais e políticos, os grandes princípios religiosos, as próprias normas literárias e artísticas manifestavam à mais ligeira observação os sinais do abalo profundo que não deixava de agitá-los; o homem do futuro já não cabia nas armaduras que vinham dos avós e ao esforço brutal que fazia por conquistar a liberdade abolavam-se as lâminas e estouravam os fechos; as próprias reacções eram sinais de derrocada; os fracos lamentavam-se e desejariam ter vivido em anos mais tranquilos, sem nenhum grave problema a resolver, com as escalas hierárquicas perfeitamente dispostas e a existência decorrendo como um fio monótono de fonte; Zola, porém, considerava como o mais belo dom dos deuses terem-no lançado para o fragor das torrentes, terem-lhe concedido ajudar as gotas companheiras na faina de abrir caminho, entre espumas e tumultos, para o verde sossego dos plainos" - Vida de Zola [1942].

O POETA, O NOVELISTA E O CRÍTICO LITERÁRIO

Agostinho da Silva desdobrou o seu talento nos domínios da novelística e da crítica literária, onde manifestou um interesse pela literatura francesa, mas cremos ser no domínio da poesia que nos deixou obra mais original e significativa, da qual estão por publicar muitos inéditos. Convivente assíduo e tradutor/recriador de grandes poetas, deixa-nos na obra até hoje publicada uma poesia singela, com uma espontaneidade afim ao gosto popular, formalmente pouco elaborada, mas densa de sentido sobretudo quando assume uma dimensão pensante, onde se retomam os grnades temas da sua especulação metafísica e da sua propensão mística. As suas quadras, lapidares e incisivas, são muitas vezes impregnadas do poder do paradoxo que subverte as estruturas da mente conceptual, recordando os haiku ou os kôan do Zen.

"Antes teor que teorema / vê lá se além de poeta / és tu poema" - Uns Poemas de Agostinho

"Atingira um silêncio tão de espanto / que era todo universo à sua volta / um seduzido canto" - Uns Poemas de Agostinho.

"Se eu chegar a ser dum Outro / mas de mim não me perdendo / e esse Outro todos os outros / que comigo estão vivendo // não só homens mas também / os animais e as plantas / e os minerais ou os ares / e as estrelas tais e tantas // terei decerto cumprido / meu destino e com que sorte / para gozar de uma vida / já ressurrecta da morte" - Uns poemas de Agostinho.

Cristina Pires

Fonte: www.agostinhodasilva.pt / Agostinho da Silva - uma antologia (organizada por Paulo Borges)

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