Gazeta do Ateneu
3.4.06
Voc Papeando sobre Guimarães Rosa

Este ano comemoramos os 50 anos das publicações de Corpo de baile e de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa ((l908-1967).
Em 1925 Rosa entra na Faculdade de Medicina e tem contos premiados; participou, como soldado, da Revolução Constitucionalista de 1932; em 1934 ingressa no Itamaraty, trocando a carreira de medicina pela de diplomata. Rosa tinha uma propensão e facilidade extraordinárias para o aprendizado de línguas. Falava, fluentemente, inglês, francês, espanhol, italiano e alemão; lia latim, grego, russo, chinês, árabe e dinamarquês. Mas... do que mais gostava, dizia, era de gado e cavalos. Viajou pelo pantanal e, em 1951, percorreu 240 km do sertão mineiro, conduzindo uma boiada.
A obra mais badalada de Rosa é Grande sertão: veredas. Tenho preferências por Sagarana e por Corpo de baile. Grande sertão: veredas, registra as narativas de Riobaldo, um chefe de jagunços, e a grande solidão interior do sertanejo. Diz-se que Grande sertão: veredas criou um dialeto. A pesquisadora Nilce SantAnna Martins afirma que analisou cerca de oito mil vocábulos empregados por Rosa na sua obra-prima, dos quais 30% não são dicionarizados. Alguns dos que estariam nessa condição: carregume, desolhadamente, embiocado, indarguir, mansejar, perequitar, tisnado, ventainhar... Quem é nordestino e conviveu com o homem do campo não estranhará estas expressões, por serem íntimas, de sala e cozinha. Atribui-se igualmente a Rosa a criação do vocábulo "nonada". "Nonada" já havia frequentado Os Sertões, de Euclides. É de uso anterior a Rosa.

Rosa foi um amante do Sertão. O Norte de Minas, onde se desenvolve o romance, está inserido no Polígono das Secas e tem características geológicas semelhantes às do Nordeste. De lembrar que foi pelo rio São Francisco que os nordestinos se interiorizaram, desde épocas remotas, nas pegadas do boi, por esses sertões-de-Deus-amém, indo até às suas nascentes, em Minas. Convém lembrar que uma multidão de nordestinos se deslocou para as Gerais quando da corrida do ouro no início do século XVIII. Que lá venceram os paulistas, no confronto que ficou registrado na história como Guerra dos Emboabas; que a maioria dos nordestinos não retornou para as suas casas quando o ciclo do ouro acabou. Rosa teve, evidente, contato com essa gente. Anotou as suas tradições orais, tal e qual Goethe havia feito em relação às tradições orais do seu povo.
Grande sertão: veredas é uma obra que merece ser estudada. É fruto de mais de dez anos de trabalho consistente, e Rosa não é nenhum Paulo Coelho.

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Harold Bloom disse que todos os autores sofrem de angústia de influência. Realmente, não é fácil ser original, principalmente nos tempos de hoje. É uma angústia que vem de longe, de depois de Homero. Nosso primeiro épico, Bento Teixeira, sofria de febre de influência.

Assim sendo, é inegável a influência de Os Sertôes (1902) sobre Grande Sertão: Veredas. A propósito, andei esquadrinhando o Ulisses, de Joyce, na tradução mais recente, de Bernardina Silveira Pinheiro. Bernardina deu um tom mais coloquial a Ulisses. Pra ser sincero, prefiro a tradução de antonio Houaiss, filólogo que nos deixou um excelente dicionário. Lembro de uma entrevista que Houaiss deu a O Cruzeiro. Contava, nessa entrevista, do seu trabalho rigoroso com o objetivo de ser o mais fiel possível a Joyce. Compreendo que não foi moleza traduzir Joyce, principalmente porque o tradutor deveria relevar o coloquial dublinense do início do século XX sem falsear a linguagem inovadora de Joyce, de estilos literários de várias épocas, e laborada sobre a estrutura de um épico da antiguidade visto por um olhar moderno.

Rosa não nega a influência de Os Sertões na sua obra, bem como a de outros ensaios de formação, de autoria de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Raymundo Faoro, Antonio Candido, Darcy Ribeiro... Contudo, entre outros propósitos, teve Rosa a pretensão de fazer uma reescrita crítica do livro precussor.

Já que falei de Joyce e Guimarães Rosa, lembrei do irmão Hermam. O irmão, marista, foi meu professor de francês no velho colégio Pio X. Gabava-se de falar o latim e todas as línguas nascidas do latim, e de gaguejar em mais dez idiomas. O irmão Hermam carregava um olhar incompreendido de figura marciana. Joyce e Rosa tinham em comum com o irmão Hermam a característica de manipularem vários idiomas (coincidências?). Rosa, positivamente, esgrimava com uns 17. Pois bem, ambos concluíram obras-primas que se comunicam pela complexidade. Não são obras fáceis de ler.

Grande Sertão: Veredas se funda nas narrativas de Riobaldo, um chefe de cangaceiros; na sua paixão não manifesta por Diadorim, companheiro de cangaço, que ele somente iria descobrir que era mulher após a morte dela. E por falar em Diadorim, quem teriam servido de modelo para este personagem? Anita Garibaldi? Jovita Alves Feitosa?

Anita a maioria de vocês conhece. Deixo-vos o desafio de descobrirem quem foi Jovita Alves Feitosa.
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Três pessoas do nosso grupo (Ferroso, Nelim e Sandrinha) responderam com presteza ao desafio que lhes fiz. Deixaram na poeira a outrora imbatível Pestinha. Fiquei surpreso com o número de respostas, não com a ligeireza demonstrada.

Recentemente, numa enquete feita pela RAI, canal de TV italiano, sobre a autoria de O nome da rosa, 12% acertaram na mosca. Afirmaram que o seu autor era Umberto Eco. Eco ficou radiante, embora nada menos de 47% dos que responderam a enquete tenham afirmado que o autor de O nome da rosa era Sean Connery. Segue-se daí o debate sobre memorização x compreensão. O escritor George Steiner, na contramão da moderna pedagogia, defende a memorização. Afirma que: O que sabemos de cor (no coração) amadurecerá e se desdobrará dentro de nós. Em Mnemão, ou a Sabedoria Humana, Voltaire conta a história de um homem que perdeu a memória. Todos os dias esse homem tinha que reaprender os passos dos meios de sobrevivência.

Eis aí a nossa Jovita, uma piauiense de coragem indômita.

O Paraguai invadiu o Mato Grosso em 1864, e foi até Goiás. Fazia muito que manifestava pretensões sobre a parte oeste do Mato Grosso. Depois invadiu o Rio Grande Sul, confiante em acirrar os sonhos separatistas daquele pedaço do país. O Brasil passou quase um ano para responder a Solano Lopez. Nosso exército possuia rídiculos 17 mil homens, contra os 100 mil de Solano. O serviço militar não era obrigatório entre nós. Assim, nasceu a campanha dos Voluntários da Pátria. O trabalho de Jovita foi fundamental para a arregimentação e agregação das nossas forças. Formaram-se batalhões de negros, de nordestinos e até de contigentes paraibanos. Ao término da guerra os negros teriam a alforria, conforme prometido. Os paraibanos infligiram pânico à gente paraguaia. Tinhamos o costume de comemorar as vitórias bebendo cachaça e comendo pedaços assados dos adversários, misto de ritual de antropofagia, crença na assimilação da coragem dos inimigos e puro deboche. Aprendemos com os potiguares. De esclarecer que ainda contamos, na Paraiba, com 30 mil potiguares puros, estacionados numa grande reserva que abrange os municípios de Marcação, Mamanguape, Rio Tinto e Baia da Traição. Estão abrigados em 28 povoações. Piscatunga ararubê, piscatunga tinga... aauê seruberubá...

Infelizmente nossa heroína sucumbiu aos transes da paixão por um cara-pálida.

Imagino o samba-de-criôlo-doido que os portugueses promoveram quando descobriram o Brasil. Era perereca pra nunca acabar. Martin Afonso, em 1530, encontrou João Ramalho bem acomodado no planalto de Piratininga com mais de 40 molequinhos, todos da sua lavra. Pereira Coutinho, em 1548, encontrou Caramuru com a sua Paraguaçu, na Bahia, e descencência não menos impressionante. A propósito, o projeto Genoma, do qual o Brasil participou com brilho, mostrou o que eu desconfiava faz muito. A contribuição indígena, na composição do sangue brasileiro, é muito superior à contribuição africana. Baseava-me num censo feito em João Pessoa no ano de 1595, dez anos depois da criação desta formosa cidade. Nossa população, naqueles idos, era de 200 brancos, 800 negros e 25 mil índios.

Nossa Jovita foi vítima do amor por um branquelo alemão. Outro branquelo nos abocanhou a formosa Julia da Silva Bruhns (1851-1923), uma índia nascida em Parati-RJ. Esta é mãe do escritor alemão Thomas Mann, autor da obra-prima A montanha mágica. De dizer que Mann sempre manteve com o Brasil uma relação muito afetiva. Pena que os seus prognósticos, inseridos em Brasil, país do futuro, não se tenham concretizado ainda.

O suicídio de Jovita foi lamentável. Tivesse me conhecido e eu a teria demovido de cometer semelhante besteira por amor.


Valdez de Oliveira Cavalcanti (voc)
posted by Ateneu @ 11:37 a.m.  
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