
Guaches de uma paisagem euclidiana
O viajante das caatingas
Ao passo que a caatinga o afoga; Abrevia-lhe o olhar; Agride-o e estonteia-o; Enlaça-o na trama espinescente E não o atraí; Repulsa-o com as folhas urticantes, Com o espinho, Com os gravetos estalados em lanças; E desdobra-se-lhe na frente Léguas e léguas, Imutável no aspecto desolado: Árvores sem folhas, De galhos estorcidos e secos, Revoltos, entrecuzados, Apontando rijamente no espaço Ou estirando-se flexuosos pelo solo, Sembrando um bracejar imenso, De tortura, Da flora agonizante...
Belos versos! Sem rima e sem metro, e tão belos!! Me-lo-di-o-sos. To-can-tes. Não são meus, claro. São versos de uma prosa. Nem de um poema são, mas poderiam ser. Fui eu que os destaquei assim.
Mas, se não são meus, de quem são? São pinceladas frágeis e robustas, prenhes de amor e ódio (?), em guache, da paisagem sertaneja: são de Euclides da Cunha, extraídos do seu livro Os Sertões (Campanha de Canudos), cap. IV.
Abaixo transcrevi alguns trechos, ou o todo, de algumas das suas pinceladas. Talvez nem sejam as mais belas. Manhãs sertanejas é o último trecho do capítulo IV. Não nego que o princípio do livro me foi algo difícil. Foi. Mas, a cada virar de folha, essa primeira impressão foi ficando cada vez mais longe, mais longe, mais longe...
Ávida da sua poesia, e da beleza que encontro nas suas narrações, passei ao capítulo V, Uma categoria geográfica que Hegel não citou... e decepcionei-me.
Por onde se tinha perdido o ritmo poético das narrações de Euclides, perguntei-me. Escreve Euclides, “Resumamos; enfeixemos estas linhas esparsas. Hegel delineou três categorias geográficas como elementos fundamentais colaborando com outros nos reagir sobre o homem, criando diferenciações étnicas...” etc., etc.
Mais adiante, ainda no mesmo capítulo, escreve: “E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez da flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas – o espasmo assombrador da seca. E perdoei-lhe! E aprendi, penso, a conhecê-lo.
A ele se deve a minha ausência; e a ele devo um outro aprendizado. A ele, e a mais alguém.
Cristina Pires
As caatingas
Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas. Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atraí; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, sembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante...
A tormenta
Mas no empardecer de uma tarde qualquer, de março, rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite, as estrelas pela primeira vez cintilam vivamente. Nuvens volumosas abarreiram ao longe os horizontes, recortando-os em relevos imponentes de montanhas negras. Sobem vagarosamente; incham, bolhando em lentos e desmesurados rebojos, na altura; enquanto os ventos tumultuam nos plainos, sacudindo e retorcendo as galhadas. Embruscado em minutos, o firmamento golpeia-se de relâmpagos precípites, sucessivos, sarjando fundamente a imprimadura negra da tormenta. Reboam ruidosamente as trovoadas fortes. As bátegas de chuva tombam, grossas, espaçadamente, sobre o chão, adunando-se logo em aguaceiro diluviano...
O sertão é um paraíso
E o sertão é um paraíso... Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos; passam, em varas, pelas tigüeras, num estrídulo estrepitar de maxilas percutindo, os queixadas de canela ruiva; correm pelos tabuleiros altos, em bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas; e as seriemas de vozes lamentosas, e as sericóias vibrantes, cantam nos balsedos, à fímbria dos banhados onde vem beber o tapir estacando um momento no seu trote brutal, inflexivelmente retilíneo pela caatinga, derribando árvores; e as próprias suçuranas, aterrando os mocós espertos que se aninham aos pares nas luras dos fraguedos, pulam, alegres, nas macegas altas, antes de quedarem nas tocaias traiçoeiras aos veados ariscos ou novilhos desgarrados...
Manhãs sertanejas
Sucedem-se manhãs sem par, em que o irradiar do levante incendido retinge a púrpura das eritrinas e destaca melhor, engrinaldando as umburanas de casca arroxeada, os festões multicores das bignônias. Animam-se os ares numa palpitação de asas, céleres, ruflando. – Sulcam-nos as notas de clarins estranhos. Num tumultuar de desencontrados vôos passam, em bandos, as pombas bravas que remigram, e rolam as turbas turbulentas das maritacas estridentes... enquanto feliz, deslembrado de mágoas, segue o campeão pelos arrestadores, tangendo a boiada farta e entoando a cantiga predileta... Assim se vão os dias. Passam-se um, dois, seis meses venturosos, derivados da exuberãncia da terra, até que surdamente, imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das árvores decíduas...
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