Gazeta do Ateneu
29.3.06
Blog-Notas - Comentários sobre a obra de Machado de Assis "O Alienista"


Comentários sobre a obra de Machado de Assis - O Alienista - (03-04-2005)

Será difícil compreender a literatura portuguesa sem a articular, na Idade Média (séc. XII a XV), com o lirismo provençal, e sem entender que ele se liga a uma expressão cultural galaico-portuguesa; durante o período clássico (séc. XVI a XVIII), com o Renascimento italiano, o Barroco espanhol e o iluminismo francês, que fazem ressaltar a especificidade do Maneirismo camoniano e a peculiaridade da nossa literatura de viagens; no séc. XIX, com o Romantismo, o Realismo, o Simbolismo e outras sensibilidades estéticas europeias; no séc XX, com o Modernismo e restantes manifestações de vanguarda e de pós-modernismo.

No Brasil, o conto, como género literário, afirma-se particularmente com o advento do Romantismo. E aqui também, como na Europa, a novidade relevante é neste século a descoberta da psicologia da personagem (circunstância que levará a focalizar principalmente nas figuras femininas a atenção do narrador). Machado vive culturalmente todas as experiências intelectuais do seu tempo de transição de um Romantismo de maneira a um Realismo que no Brasil, como na Europa, caracteriza a segunda metade do século XIX. Eis então a crítica religiosa, o evolucionismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientismo, em todas as suas possíveis valências, mobilizados em tirar das leis da experiência quotidiana uma poética, no seu caso, de tal maneira original que chegou a ser considerada uma "ilha" em relação ao novo como ao velho mundo. É, portanto, com estes pressupostos que se torna possível examinar alguns dos contos de Machado de Assis. O primeiro e mais significativo aos fins de uma leitura de cunho psicanalítico é O Alienista.

Entre o Positivismo fin de siècle e o Neo-Realismo, no momento em que cresce a incerteza e com ela a dúvida sobre a infalibilidade da ciência, Machado dá a lume esta história inquietante, maliciosamente irónica e jocosamente satírica sobre o eterno tema da loucura: à sua maneira, na realidade, ele reescreve a história da psiquiatria.

Embora a sua fama esteja ligada aos grandes romances - entre os quais ressalta a trilogia Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1889) - Machado permanece essencialmente um criador de contos. No sentido que exactamente a medida do conto lhe consente, mais do que o afresco do romance, a compenetração na psicologia da sociedade do Segundo Império, sua constante matéria poética. Nisto insere-se ele tanto na tradição do conto francês (Victor Hugo, Balzac, Maupassant, Stendhal, Flaubert) como na esteira de uma corrente nacional cujos primeiros modelos são autores quais José Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Luís Guimarães Filho. É num estilo limpido, polido e ao mesmo tempo coloquial que ao curso tipicamente linear dos acontecimentos vemos corresponder a finura da linguagem e a facilidade expressiva.

No primeiro livro que li de Machado de Assis, Dom Casmurro, Machado centraliza-se em torno do matrimónio, do ciúme, do amor-fatalidade, valendo-se de situações eternas quais o triângulo amoroso marido-mulher-amante. O matrimónio é tratado, ao longo de todo o século XIX, principalmente sob o aspecto da respeitabilidade da mulher ou da traição, esta última indagada nas suas facetas cómicas ou trágicas. Neste segundo, O Alienista, Machado serve-se do personagem Simão Bacamarte que se dedica à ciência e aos estudos da loucura; desmascara a hipocrisia humana, critica a postura cientificista e o extremo cientificismo do final do século XIX, além dos aspectos sócio-politicos. Devo dizer que, para maior entendimento da obra de Machado, neste caso O Alienista, não me debrucei sobre as Casas de Orates no Brasil, nem como os pacientes eram tratados, nem sobre os primeiros passos da psiquiatria no Brasil.

"Suponho o espírito humano uma vasta concha; o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilibrio de todas as faculdades; fora daí insânia; insânia e só insânia."

No seu dicionário de Filosofia, Simon Blackburn (verbete racionalidade) esclarece: "Aceitar uma coisa como racional é aceitá-la como algo que faz sentido, ou que é apropriado, ou necessário, ou que está de acordo com um objectivo reconhecido, tal como chegar à verdade, ou alcançar o bem".

Ao exercício de procurar e avaliar argumentos antes de aceitar como bom o que penso saber, é o que, em termos gerais, se costuma chamar razão. A razão seria então um conjunto de hábitos dedutivos, cálculos e precauções, em parte ditados pela experiência e em parte baseados nas pautas da lógica. Esta combinação constituíria uma faculdade capaz - pelo menos em parte - de establecer ou captar as relações que fazem com que as coisas dependam umas das outras, e sejam constituídas de uma determinada forma e não de outra (Leibniz).

A razão é a faculdade que nos distingue dos restantes animais, e para o Dr. Bacamarte, a razão é o perfeito equilibrio de todas as faculdades. O excesso ou escassez de uma das faculdades do ser humano, demarcaria a fronteira entre a razão e a loucura. Excesso ou escassez de modéstia, humildade, valorização exagerada do satuts, ostentação. Alguns destes desiquilibros representados por Costa, o albardeiro Mateus, o jovem Martim Brito, entre outros personagens do conto de Machado; demonstrar uma afectividade extrema, convulsiva, com paixões, cóleras, mudanças brutais de humor, etc., traz em si uma fonte permanente de delírio. A escassez do mesmo, também.

Dizia Valdez, numa outra troca de impressões sobre a obra de Machado, "Dizem, embora eu não concorde, que para entender a obra é necessário que conheçamos o seu autor". A mim, muito me ajudou conhecer um pouco da vida de Machado; como conhecer um pouco da vida de Jouhandeau, por exemplo, para saber que a sua famosa personagem Elise, é o retrato fiel da sua esposa, Elisabeth Toulemon, com todas as suas cóleras e discórdias na vida doméstica do autor.

Literatura, diria Sartre, é a tentativa do homem-escritor de criar uma realidade que possa ser exibida no mundo real e modificar as estruturas da sociedade humana, ao que eu acrescentaria que a Literatura é uma Ciência, logo "... nem a Ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante."


Cristina Pires
posted by Ateneu @ 8:24 a.m.  
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